MEJA MWANGI Mzungu Portuguese
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Mzungu é "menino branco" em swahili, mas isso não
importa muito para Kariuki e Nigel. Também parece
não importar o fato de Nigel ser inglês e neto do dono
das terras onde a família de Kariuki mora.
Naqueles meses de 1950, quando o Quênia começava
a lutar pela independência, Kariuki e Nigel - negro e
branco, queniano e inglês - só querem caçar o Velho
Moisés, um porco-selvagem que vive na floresta.
Entre rebeliões e mortes, os dois descobrem que a
verdadeira amizade independe da cor da pele, da
riqueza e do poder: precisa apenas de respeito e
confiança.
Meja Mwangi nasceu no Quênia, em 1948. É autor de
diversos livros premiados e traduzidos para o alemão,
russo e japonês. Atualmente é considerado um dos
mais importantes autores africanos.
Mzungu não conta a vida do autor. Contudo, no livro há muitas
experiências vividas por ele.
Nasci no Quênia, ao pé do monte Quênia, e cresci na cidade de
Nanyuki, e em seus arredores. Naquela época, meu país era
uma colônia britânica. Estava ocorrendo uma guerra pela
independência, e os mau-mau, como eram conhecidos aqueles
que lutavam pela liberdade, pegaram em armas contra o
governo colonial e os dominadores britânicos que, por meio da
força, roubaram as terras dos africanos e os obrigaram a viver
como escravos em seu próprio país.
Uma das maiores bases do exército britânico ficava em
Nanyuki, e tentava sufocar a rebelião. O governo havia
prometido eliminar os mau-mau, que travavam um combate de
guerrilha contra o regime colonialista e os fazendeiros brancos.
Nanyuki tinha um conjunto de lojas e mercados que abastecia
o exército britânico e os colonizadores que habitavam a
circunvizinhança do Monte Quênia. Como no restante do país,
havia uma divisão racial na cidade. Os europeus dispunham da
maior parte das terras, os asiáticos eram donos de todas as
lojas e mercados, e os africanos trabalhavam para ambas as
comunidades. As raças não se misturavam, exceto no
relacionamento entre senhores e criados. Sempre que os
negros compravam nas lojas dos brancos, eram obrigados a
usar a porta ou a janela dos fundos, pois não podiam entrar
pela frente.
Com exceção daqueles que moravam e trabalhavam nas
fazendas dos colonizadores, todos os outros africanos
habitavam uma favela conhecida como Majengo. Cercada com
arame farpado, ela dispunha apenas de uma entrada, cujo
portão era vigiado por soldados armados. Ninguém podia
entrar ou sair sem uma carteira de identidade e documento de
trabalho, provando que viviam ou trabalhavam em Nanyuki.
Minha mãe era comerciante em Majengo. Ela comprava milho
dos fazendeiros, triturava-o até transformá-lo em farinha e
então vendia no mercado africano de Majengo. Depois, quando
a guerra dos mau-mau se agravou e ficou difícil atuar no
comércio, ela empregou-se como jardineira de uma família
européia. Em seguida, trabalhou como criada, cozinheira e,
finalmente, como babá. Nigel, o menino mzungu, era filho de
um dos patrões de minha mãe. Seu pai era sargento do
exército inglês. Embora não fôssemos encorajados, Nigel e eu
nos tornamos bons amigos. Sempre que seus pais estavam
fora, Nigel vinha me procurar para que brincássemos juntos.
Eu freqüentei uma escola católica, em Majengo. Toda
segunda-feira de manhã precisávamos levar um bilhete da
igreja informando que tínhamos ido à missa no dia anterior.
Após a missa, eu gostava de explorar a floresta que crescia
entre os dois rios. Às vezes ia pescar, embora apanhar peixes
sem licença fosse uma atividade proibida, e, nas férias
escolares, participava de caçadas com outros colegas. Era
proibido caçar também, mas nós arriscávamos mesmo assim.
De vez em quando, os guardas florestais nos pegavam e,
então, era terrível! Primeiro os guardas nos batiam, depois
levávamos uma surra de nossos pais e professores. Algumas
dessas experiências inspiraram a história de Mzungu.
Comecei bem cedo a contar histórias. Às vezes, à tarde, o
professor nos levava para fora, para que nos sentássemos
debaixo de uma árvore e desfiássemos aventuras. Eu era o
contador de histórias oficial da classe, mas só fui descobrir os
livros de ficção no curso secundário. Foi nessa época que
comecei a escrever minha primeira obra, um romance sobre um
general mau-mau que enfrentava a morte na selva. O livro
acabou sendo publicado com o nome de Carcaça para os cães.
Mesmo assim, a idéia de me tornar um escritor nunca me
passou pela cabeça. Só queria contar histórias.
Meja Mwangi Fevereiro/2006
PORTUGUESE - BRAZIL
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Os meninos são em geral os primeiros a saber quando algo sai errado.
Quando os leões invadiram os currais de bivana Ruin e comeram três de
seus maiores bois, foi um garoto quem primeiro avistou as feras se
banqueteando e deu o alarme. Quando um incêndio repentinamente
assolou um dos velhos celeiros onde bwana Ruin armazenava seu diesel e
seu feno, foi um moleque quem primeiro viu a fumaça. E quando um vigia
desapareceu da leiteria, de onde o maquinário também foi roubado, foi um
menino que topou com seu cadáver na floresta, bem distante da
propriedade rural, e alertou o restante do pessoal.
Eu não ignorava que os fazendeiros brancos levavam uma vida boa e
abastada em suas casas espaçosas, enquanto os africanos que
trabalhavam para eles amargavam uma vida de escravidão em cabanas
insalubres nas aldeias. Sabia que os brancos não gostavam dos negros e
nos tratavam um pouco melhor do que tratavam seus jumentos e bem pior
do que cuidavam de seus cães. Meu pai havia me contado. Sabia que
pagavam uma miséria aos empregados, fazendo-os trabalhar feito
escravos. Sabia que os brancos surravam os negros e os encarceravam
em prisões. Sabia que os desterravam em colónias penais de ilhas
distantes, onde morriam de malária e outras doenças. Não era segredo
que bwana Ruin batia nas mulheres da aldeia, abusando delas, quando as
encontrava na selva cortando lenha para o fogo.
Sabia de todas essas coisas e de muitas outras, porque as pessoas
falavam disso o tempo todo. Uma vez bwana Ruin atiçou seus cães contra
nós quando nos viu roubando frutas de seu pomar. Eu escapei pulando
uma cerca de ameixeiras-de-madagascar, infinitamente alta, mas um dos
moleques morreu por causa das mordidas. Seu pai correu três quilómetros
carregando seu filho gravemente ferido nas costas, porque bwana Ruin
não deixou Hari levar o pobre ao hospital no carro de boi que servia para
transportar leite e nata para Nanyuki.
— Um ladrão é sempre um ladrão — ele havia dito. — Que isso lhes sirva
de lição.
Mas nós logo esquecemos e voltamos a saquear o pomar. Era o único
arvoredo frutífero da região.
Embora eu soubesse disso tudo, e de muitas outras coisas erradas e
injustas, nunca deixei que elas me atormentassem por um momento
sequer. Vinham ocorrendo fazia muito tempo, e os adultos nada faziam
senão lamuriar. Além disso, eu tinha de ir à escola, pegar peixes e caçar o
Velho Moisés. De modo que deixei os adultos se queixarem das injustiças.
Mesmo meu pai de nada servia. Ele resmungava, gemia e, em casos
extremos, descontava sua raiva sobre mim ou Hari. Quando as coisas
davam errado na cozinha, quando ele queimava o assado e levava uma
reprimenda de mamsab Ruin, chegava furioso em casa. Saía à cata de algo
que tivéssemos feito, ou que não tivéssemos feito, e nos castigava por
isso. Ficava acordado à noite, remexendo na cama e suspirando repetidas
vezes. Já o ouvi jurar que não se sujeitaria de novo. Já o ouvi prometer a
si mesmo lutar por seus direitos e por sua dignidade. Já o ouvi jurar que
pediria demissão e encontraria outro emprego.
De minha cama dura e fria no cómodo da cozinha, ouvi meu pai pensar
muitas coisas em voz alta. Mas, quando chegava a manhã, ele se
levantava com as galinhas e ia acender o fogão na cozinha e esquentar a
água para o banho de bwana Ruin. Independentemente do tipo de noite
que meu pai tivera, o café da manhã de bwana Ruin estava sempre pronto
às sete da manhã.
Sabia que havia gangues vivendo na selva, armadas de machetes e
lanças e que cheiravam a búfalo. Sabia que se chamavam mau-mau. De
acordo com bwana Ruin, eram homens ruins, ladrões e assassinos. Mas
nunca roubaram nada de mim ou falaram comigo, a não ser naquele dia
que mandaram entregar a mensagem a Hari.
Sabia que não devia comentar sobre eles com ninguém, nem mesmo com
Hari, que era o melhor amigo deles. Mas não tinha a menor ideia do que
estavam tramando, ou da razão pela qual se ocultavam nas sombras da
floresta. Só foi quando ocorreu a segunda investida dos soldados brancos
que comecei a ter uma noção do que estava ocorrendo.
Os soldados nos arrebanharam e nos tocaram para o curral de leilão,
como da vez anterior. Obrigaram-nos a sentar sobre esterco de vaca. Eles
nos cercaram, as armas apontadas contra nossa cabeça, enquanto
revistaram a aldeia mais uma vez. Vasculharam novamente cada canto e
cada fresta, à procura de qualquer coisa que pudesse associar os aldeões
aos mau-mau. Deixaram os casebres de cabeça para baixo e roubaram
dinheiro e artigos valiosos como já haviam feito. Mas não encontraram
nenhuma arma nem sinal dos mau-mau, de modo que desistiram de sua
busca por fim.
Bwana Ruin veio falar à sua gente, procurando induzi-la a cooperar. O
fazendeiro se postou sobre o tablado de leilão bem acima de nós, de
modo que o sol queimava nossas retinas quando olhávamos para ele.
Bwana Ruin nos contemplava como se fôssemos gado e se dirigiu para
nossos rostos concentrados.
— Watu — ele disse —, ouvi dizer que há alguns watu andando por aí à
noite, contando um monte de maneno, um monte de bobagens.
Estava usando suas roupas caqui e suas botas de montaria. Como de
costume, batia na bota direita com o chicote enquanto ladrava.